I - Correntinha

- Padre Pantaleão, dona Maricota quer falar com o senhor.

- Ai meu Deus, o que é que esta mulher quer? Tá na hora da minha novela!

- Mas padre Pantaleão, o senhor é o padre, e a obrigação do senhor é com os seus paroquianos. Deixe dessa coisa de novela, o senhor decidiu ser padre para levar as almas das suas ovelhas para Deus!

- Acontece, minha filha, que nem Deus deve agüentar esta dona Maricota, por isso que teima em deixar por aqui esta senhora que já passou do tempo há muito tempo, e a bomba fica na minha mão...

- Padre Pantaleão!

- Tá certo, Ritinha, tá certo. Manda ela entrar! Oi, dona Maricota, como vai a senhora?

- Oi padre Pantaleão, como vai o senhor?

- Já estive melhor, dona Maricota, mas estou como Deus quer. A gente sempre está como Deus quer, não é verdade?

- É sim, padre. Veja bem, eu queria saber se o senhor pode abençoar esta correntinha de Nossa Senhora que eu pretendo usar na quermesse...

- Posso sim, dona Maricota, eu abençôo até calcinha de vitalina que quer arrumar marido...

- Como é, padre?

- Nada, dona Maricota. Me dê cá. Pronto, tá abençoada, viu?

- Obrigado, padre! O senhor acha que eu vou ficar bonita com ela?

- Vai, dona Maricota, vai ficar linda. Mas que mal lhe pergunte, isso não podia esperar até a Missa de Domingo?

- Não padre, porque a quermesse é essa noite!

- Ah, é verdade. Quem foi que teve a idéia de marcar uma quermesse na quarta-feira?

- Ué, não foi o senhor, padre?

- E a senhora acha que eu tenho tempo de ficar cuidando de agenda da paróquia, dona Maricota? Eu sou um homem muito ocupado!

- Sim, padre desculpe. Só mais uma coisa...

- O que é?

- O senhor acha que se eu der esta correntinha pra seu Astrogildo ele vai gostar?

- Da correntinha? Acho que vai, dona Maricota, mas pra quê a senhora vai dar pra ele esta correntinha que é de mulher?

- Pra ele dar pra mulher dele, seu padre, e aí... sei lá, vai que a mulher dele usa e aí quando o Astrogildo a vir com esta correntinha, ele não lembra de mim...

- Dona Maricota! O homem é um senhor casado!

- Desculpa, padre, mas o que posso fazer? Só quem fala comigo é o senhor e o seu Astrogildo, e o senhor é padre, e... sei lá, acho mais fácil ele ficar viúvo do que o senhor largar a batina...

- Deus do Céu! Olhe, dona Maricota, faz muito tempo que eu não uso batina, mas a senhora não imagine que isto tem alguma coisa a ver com esta conversa indecente que a senhora está tendo comigo! Prometo que a partir de hoje vou passar a vesti-la todos os dias de manhã, para me lembrar de todos os males dos quais ela me livra...

- Males, padre?!

- É jeito de dizer, dona Maricota, é jeito de dizer! Mas pronto, já tá abençoada, ainda bem que bênção não é veneno, porque o coitado do seu Astrogildo não merece uma desgraça dessas na vida dele...

- Que desgraça, padre?! O senhor tá falando de mim?

- Tô falando de ser viúvo, dona Maricota!

- Ah, padre, mas eu garanto que se alguma coisa acontecesse com a mulher dele eu não ia deixá-lo viúvo por muito tempo...

- Bom... realmente, a senhora me fez lembrar que a situação de um homem pode sempre piorar...

- Como é, padre?!

- Nada, dona Maricota, tô pensando alto. Mas tá bom né, vá-se embora que eu tenho que cuidar aqui.

- Vou indo, padre! Se o senhor vir seu Astrogildo, diga que eu tenho uma surpresa pra ele!

- Tá bom, dona Maricota, vou dizer. Tchau. Ô Ritinha, ela já foi?

- Já, seu padre.

- Olha, se seu Astrogildo passar por aqui, diz pra ele não ir na quermesse, visse?

- Mas por quê, padre?

- Por nada. Ah, aproveita e diz também que Deus o livre, mas se um dia ele precisar eu tenho uma batina tamanho viúvo aqui.

- Ham?

- Somente diz, Ritinha, somente diz.

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