II - Quermesse

- Duas cervejas?

- É, duas cervejas.

- Religiosamente?

- Isto, tomo-as quimioterapeuticamente.

- Toma o quê?

- Ah, Alonso, só quero dizer que as tomo a sério. Sempre duas, nem mais, nem menos. Todos os dias.

- E faz bem?

- Eu li não-sei-onde que faz. Já ando me sentindo melhor, mais bem disposto... antigamente eu me sentia inchado quando bebia, sabe? Agora não tem mais isso: é tomar cerveja, arrotar e estar pronto pra outra!

- Quer dizer que você vai passar a quermesse inteira tomando só duas cervejas?

- É, por isso que ainda estou na primeira...

- Mas Astrogildo, já faz mais de uma hora que tu estás aqui com esta latinha na mão!

- Claro Alonso, eu só posso tomar DUAS a noite inteira! Quer que eu tome de uma vez e depois fique morrendo de sede?

- Esta porcaria já deve estar quente!

- Está quente mesmo, e é até melhor assim, porque dá menos vontade de beber e é mais fácil de se segurar.

- Caramba, e pra quê raios tu estás te forçando a tomar uma porcaria de uma cerveja quente?

- É remédio, Alonso! É terapia. Ando tomando, religiosamente, duas cervejas por dia...

- Seu Astrogildo! Seu Astrogildo!

- Ih, Alonso, lascou. É aquela véia xexelenta da Maricota que tá vindo atrás de mim. Me ajuda.

- Eu, não. Se tu tá tomando esta cerveja quente ruim, pode muito bem agüentar a dona Maricota. Aliás, perto desse xurume aí que tu tá bebendo, a véia deve estar uma delícia...

- Porra Alonso, deixa de brincadeira!

- Te vira, Astrô! Fui!

- Puta que o pa...

- Seu Astrogildo! Finalmente encontrei o senhor! E aí, como o senhor está?

- Ô, dona Maricota! Eu estava, ô, estou muito bem, obrigado, e a senhora?

- Eu tô ótimo! Cadê a Carminha?

- Teve que ficar em casa, não tá se sentindo muito bem.

- Ah, tá certo. Olha, seu Astrogildo, eu tenho aqui um presente pra ela...

- Um presente? E desde quando vocês são amigas?

- Credo, Totô, que mal humor, isso deve ser por causa dessa cerveja, tu já tá bebendo de novo...

- Não me chama disso, dona Maricota! Que coisa, já falei que não gosto! E quem a senhora pensa que é pra falar da minha cerveja? É minha mulher, por acaso?

- Ô, quem dera...

- É o quê?

- Nada, Totô... ops, nada, seu Astrogildo, nada. O senhor também é muito amargo. Mas vai, entrega essa correntinha pra sua esposa e diz que fui eu que mandei? Quero fazer as pazes com ela...

- Pazes por quê? Vocês brigaram por acaso?

- Nada, seu Astrogildo, é besteira. Entrega, tá? Diz que eu escolhi com carinho. E o padre Pantaleão já abençoou.

- Tá bom, dona Maricota, entrego sim. Pode deixar. Tchau viu?

- Tchau, seu Astrogildo, um beijo!

- Tchau, viu? Até outra hora, outro dia, outro ano.

- Um beijo, tchau!

- Tchau!

- Um beijo!

- Tchau!

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