V - Fofocas

- Prolépi o quê?

- Prolepse analéptica, Robinho.

- Prolepse cataléptica?

- Analéptica, meu filho, analéptica, que vem de analepse. Catalepsia é outra coisa, é aquilo do Solfieri, do Álvares de Azevedo.

- Ah, o rapaz que encontrou uma mulher morta né?

- Tecnicamente ela não estava morta, e sim cataléptica; mas, sim, é isso aí.

- Certo. Desse eu me lembro. E o que é isso aí que tu tá falando?

- Prolepse analéptica, meu caro, isso é fantástico! É a união, em uma mesma passagem, da prolepse com a analepse, isto é, de uma antecipação do futuro com uma reminiscência passada! A genialidade reside justamente no fato de que são duas coisas opostas.

- Uma antecipação do futuro...

- ... com uma reminiscência passada! Isso!

- Ou seja, o cara narra um fato que é passado e futuro ao mesmo tempo? Como é isso?

- Não, ele não narra um fato que é passado e futuro ao mesmo tempo, é claro que não, Robinho, isso é um absurdo metafísico. Ele narra, por exemplo, uma lembrança do passado que há-de acontecer num momento futuro.

- Ham?

- Meu filho, me acompanhe. Lembra do García Márquez?

- Do Cem Anos de Solidão?

- Isso, exatamente o "Cem Anos de Solidão"! Lembra?

- Sim, lembro, o que tem?

- Lembra a primeira cena?

- Que o sujeito lá foi ver o gelo.

- Não, antes.

- Que ele estava pra ser fuzilado.

- Isso! Um pouco antes.

- ... que no futuro ele estaria diante do pelotão de fuzilamento lembrando de quando viu o gelo! Fantástico!

- Isso! Exatamente! O livro começa dessa exata maneira: muitos anos depois, diante de um pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía (acho que era ele) havia de se lembrar do dia em que seu pai o levou pra ver o gelo!

- Caramba, genial!

- Não é? A prolepse é o protagonista diante do pelotão de fuzilamento, e a analepse é a lembrança que ele tem então. Uma analepse dentro de uma prolepse: uma prolepse analéptica!

- Fantástico! Fantástico!

- E o sujeito escreve isso com uma naturalidade que o leitor sequer percebe! É na sutileza do emprego simultâneo de figuras de linguagens tão díspares que está a genialidade digna de um prêmio Nobel!

- Poxa, Toninho, onde é que tu aprendes essas coisas?

- Ah, na Wikipedia!

- ...! E eu achando que tu estavas estudando...

- Ué, estou estudando na Wikipedia, aproveitando os momentos vagos para aumentar o meu conhecimento, o que é que há de demérito nisso?

- O que tem o Demétrio? Soubesse?

- Demérito, meu filho! Tô dizendo que não tem nada de errado em aprender com a Wikipedia!

- Ah, isso sim. Achei que você tava sabendo do Demétrio!

- O que tem o Demétrio?

- Rapaz, ele tá arrasado. Sabe o tio dele...

- ... o Astrogildo? Sei sim. O que tem?

- Então. Parece que a dona Do Carmo morreu.

- Morreu? Como assim?

- Morreu, morrendo, ué. Sei lá!

- Que coisa! Quando foi isso?

- Ontem ou anteontem. Foi de madrugada. O Astrogildo tá arrasado.

- Mas por quê? 

- Sei não, ele tá se sentindo culpado.

- Culpado? E ele matou a mulher, por acaso?

- É isso que ninguém sabe!

- Robinho, Robinho... olhe lá o que você vai me dizer!

- Então, escuta: o Demétrio disse que, sem querer, ouviu o tio se lamentando no caixão de dona Do Carmo e repetindo "meu Deus, o que foi que eu fiz, o que foi que eu fiz?".

- Rapaz... que coisa...

- E tem mais: todo mundo garante que a mulher tava ótima! Num dia, estava toda alegre e bem disposta, ia até pra Quermesse! De repente passou mal, ficou em casa, deitou, dormiu e morreu.

- É mesmo... rapaz, que coisa suspeita!

- Num é?

- É! E o que o Demétrio vai fazer disso?

- Nada, o que tu quer que ele faça?

- Sei lá... diga pra polícia, peça pra alguém investigar! Pô, é a tia dele!

- Tu acha, Toninho? Vai que o tio dele matou a velha mesmo? E vai que descobre que o Demétrio tá atrás dele? Vai que ele resolve matar o Demétrio também, só pra garantir?

- Hum...

- Que foi?

- ... e então, daqui a alguns dias, de madrugada, com as mãos do seu tio esmagando-lhe o pescoço, Demétrio vai lembrar de quando ouviu os lamentos de Astrogildo no velório de sua esposa. E vai se arrepender amargamente.

- Que é isso, Toninho?!

- Prolepse analéptica, Robinho, prolepse analéptica! Acha que é só o García Márquez que consegue, é?

- Ah, vai te fuder, brincando com coisa séria, po!

- Hahaha, que nada, mas fala aí, mereço ou não mereço um Nobel?

- Daqui a cem anos, talvez.

IV - Madrugada

- Togildinho! Togildinho!

- Que foi, mulher?

- Tô sentindo uma coisa...

- Que coisa, mulher?

- Um calor... um aperto...

- Ô mulher, tu é danadinha, hein? Me acordando de madrugada pra isso? Vem cá, deixa que eu levanto essa camisola...

- Ai...espera...

- Humm, você quer o serviço completo, é? Ah, essa minha mulher... por isso que eu amo você, a nossa vida nunca é uma rotina, quem poderia imaginar que, depois de vinte anos de casado, você ainda teria tanto desejo pelo seu marido a ponto de acordá-lo de madrugada pra isso...

- Astrogildo!

- Carmete? Deixa eu te ajudar com a camisola... epa! Que é isso, mulher, tu tá queimando de febre!

- É o que eu tô querendo dizer, Astrogildo, e tu com tuas putarias, acha que eu te acordei pra fazer safadeza? Eu tô me sentindo mal, é o que eu tava tentando te dizer...

- Não foi a feijoada do almoço não? Bem que eu tava sentindo uns cheirinhos meio desagradáveis agora há pouco, quando tava dormindo, mas tava achando que era só um pesadelo olfativamente palpável...

- Astrogildo, deixa de brincadeira, é sério!

- Que foi, Carmete, o que é que tu tem?

- Não sei... ai meu Deus do Céu, ai minha Nossa Senhora, eu tô morrendo!

- Calma, Carmete, vamos manter a calma.

- Ai minha Nossa Senhora, valei-me! O que foi que eu fiz pra merecer morrer assim, de madrugada, queimando de febre?

- Carmete, deixa de coisa, que tu não vai morrer não. Peraí que eu vou ligar pro doutor.

- Não, Togildinho, não, pelamordedeus, não me deixa nesse momento tão terrível. Peraí que eu tenho uma coisa pra te contar!

- Carmete, é só um instante, se tu tá passando mal tem que chamar o doutor.

- Não, Togildinho, é importante! Por favor não, eu não casei contigo pra tu me abandonar na hora da morte, fica aqui comigo, fica aqui vai.

- É rápido, Carmete!

- Ai meu Deus, Togildinho, volta aqui. Volta aqui, Astrogildo. Volta aqui, seu peste, VOLTA AQUI QUE TUA MULHER TÁ MORRENDO. Ai, minha Nossa Senhora, que eu não devia brigar com o meu marido na hora em que vou morrer, com que cara eu vou chegar diante de Deus pra explicar isso pra ele? Hummm já sei... vou dizer que foi a dor, que foi o medo... que eu era muito nova, que eu sou muito nova, a gente só tinha, digo, tem dez anos de casados... e todos os filhos que a gente queria ter, e toda a vida que a gente tinha ainda por viver, e aí de repente eu vejo isso se escoando por entre meus dedos e o traste do seu marido, ao invés de ficar comigo pra me consolar, inventa de chamar um médico... UM MÉDICO, se eu quisesse um médico comigo na cama de madrugada tinha casado com um! Ai... ai que dor, que aperto, acho que eu não tô agüentando... ai meu Deus é agora... é agora... valei-me, minha Nossa Senhora, valei-me... ai meu Senhor Jesus Cristo, valei-me... ai... ai!

- Carmete, cheguei, acabei de ligar pro doutor Hermogildo e ele disse que não devia de ser nada, provavelmente era uma virose, mas que de qualquer maneira tu passasse no hospital que ele te dava uma olhada e receitava um remédio. Viu só, eu falei que ia resolver isso... vamos lá, meu bem?

- ...

- Carmete? Carmete, tu tá me ouvindo? O doutor disse que é melhor tu passar no hospital. Vamos lá... Carmete...? Carmete, FALA COMIGO, Carmete? CARMEEEETE!

III - No quarto

- E então, Togildinho, como foi lá?

- Ah, Carmete, foi legal. Tomei minhas cervejas, vi as barraquinhas, conversei com o Alonso... foi bom porque deu pra ajudar a igreja lá, o padre Pantaleão passou mais tarde e agradeceu, acho que valeu a pena. Numa quarta-feira ninguém merece, né, mas até que foi divertido...

- O que ninguém merece é ficar doente no dia da quermesse! Eu queria tanto ter ido... por que fui exagerar na hora do almoço, meu Deus, por quê?

- Ô Carmete, mas também tu podia ter ido, só uma indigestãozinha...

- Indigestãozinha? Você está louco? Eu estou com mais gases que o Zeppelin, mais inchada do que a Geni e certamente mais fedida do que a pobre da mulher ao fim da música...

- Que exagero, Carmete! Dava pra ter ido!

- Dava, claro! Só se eu fosse vestida de fossa...

- Carmete!

- ... espalhando catinga de urubu morto por onde eu passasse...

- Carmete!

- ...contaminando as comidas todas cada vez que eu passasse perto de uma barraca e não conseguisse me segurar...

- Carmete!

- ... intoxicando as pessoas, que iam sofrer ataque de gases tóxicos sem saber de onde ele veio...

- Carmete, tá bom, pára! Que coisa!

- Ô Togildinho! Tá bom, é brincadeira. Mas me conta mais, que teve mais lá?

- Ah, nada, a gente só ficou por lá conversando e vendo o tempo passar... ah, lembrei agora, dona Maricota te mandou um presente?

- Dona Maricota? Aquela lambisgóia que vive dando em cima de tu?

- É, aquela mesma...

- E o que tu tava fazendo puxando conversa com aquela quenga, Astrogildo?

- Ô Carmete, também não fala assim. Tá pensando o quê, acha que eu tendo uma mulher maravilhosa dessas em casa vou ficar olhando praquela velha daquela Maricota...

- ELA É CINCO ANOS MAIS NOVA QUE EU, ASTROGILDO! TÁ ME CHAMANDO DE QUÊ, DE CAQUÉTICA DEMENTE É?

- ... Ehr! Ai, Maria do Carmo, que inferno! Num tem nada a ver não, pronto, oxi! Quero nada com dona Maricota não, até parece! Toma, ela mandou isso pra tu.

- Uma correntinha? De Nossa Senhora Aparecida? Olha... é até bonitinha.

- Foi, ela disse que era pra fazer as pazes. O que foi que aconteceu entre vocês duas que eu não tô sabendo? Quando foi que vocês brigaram, pra precisar fazer as pazes?

- Ah, não é nada não... é que outro dia eu peguei ela na Missa de rabo de olho pra tu, sabe?

- Sei...

- ... e aí, na saída, quando tu fosse falar com o padre, eu aproveitei pra tirar satisfação com ela...

- Tu fizesse o quê, mulher?

- Fui falar com ela, Astrogildo. Tu acha que eu sou mulher de deixar uma qualquer ficar dando em cima do meu marido, descaradamente como ela tava fazendo, e não fazer nada? Ah, meu querido, não é assim não, aqui tem diretoria!

- Ai, meu Deus, que vergonha...

- Tu tem vergonha de mim? Tem vergonha de tua mulher, Astrogildo?

- Não, Carmete, não foi isso que eu quis dizer.

- E tu quisesse dizer o quê? Vai, desembucha!

- Aff, Carmete, eu quis dizer nada, só que é constrangedor esse tipo de briga por minha causa, parece até que eu é que sou a fêmea disputada por dois machos no cio...

- Como é, Astrogildo, TU TÁ DIZENDO QUE EU TÔ NO CIO? Acha que eu tô viçando, é?

- NÃO, MARIA DO CARMO, que merda, também tu leva tudo ao pé da letra, esquece, foi um exemplo infeliz que eu usei. Mas termina de contar logo essa história. Tu fosse falar com ela e o quê?

- Eu disse pra ela que tava de olho nela, e que a igreja inteira tava vendo ela secando o meu marido, e que isso era uma coisa muito feia, uma senhora da idade dela devia estar preocupada em guardar o recato, em levar uma vida modesta, e não em se vestir como uma periguete pra ficar caçando o marido dos outros na igreja...

- Meu Deus, Carminha, tu não dissesse isso!

- Disse! E disse mais, que se eu sonhasse em vê-la de novo olhando pra você, ia quebrar a cara dela! Aí ela ficou toda errada, desconversou, disse que eu tinha entendido errado, que ela não queria tomar marido de ninguém, e foi embora.

- Ela não gritou contigo nem nada?

- Nada, aquilo é uma frouxa.

- Ô Carmete, tu também fosse muito grossa com a mulher.

- Fui nada. Ela tanto viu que tava errada que veio me dar essa correntinha pra fazer as pazes. Não é bonita?

- Até que é bonita mesmo.

- Eu vou usar logo agora.

- Mas mulher, a gente já vai dormir!

- E daí? É Nossa Senhora, é bom que protege! Ajuda aqui a botar.

- Deixa eu ver... pronto! Ficou linda!

- Não ficou? É, acho que vai dar pra fazer as pazes com dona Maricota. Domingo eu falo com ela.

- É melhor mesmo. Pronto, eu vou me trocar, visse? Chego já.

- Vem logo, Togildinho!

II - Quermesse

- Duas cervejas?

- É, duas cervejas.

- Religiosamente?

- Isto, tomo-as quimioterapeuticamente.

- Toma o quê?

- Ah, Alonso, só quero dizer que as tomo a sério. Sempre duas, nem mais, nem menos. Todos os dias.

- E faz bem?

- Eu li não-sei-onde que faz. Já ando me sentindo melhor, mais bem disposto... antigamente eu me sentia inchado quando bebia, sabe? Agora não tem mais isso: é tomar cerveja, arrotar e estar pronto pra outra!

- Quer dizer que você vai passar a quermesse inteira tomando só duas cervejas?

- É, por isso que ainda estou na primeira...

- Mas Astrogildo, já faz mais de uma hora que tu estás aqui com esta latinha na mão!

- Claro Alonso, eu só posso tomar DUAS a noite inteira! Quer que eu tome de uma vez e depois fique morrendo de sede?

- Esta porcaria já deve estar quente!

- Está quente mesmo, e é até melhor assim, porque dá menos vontade de beber e é mais fácil de se segurar.

- Caramba, e pra quê raios tu estás te forçando a tomar uma porcaria de uma cerveja quente?

- É remédio, Alonso! É terapia. Ando tomando, religiosamente, duas cervejas por dia...

- Seu Astrogildo! Seu Astrogildo!

- Ih, Alonso, lascou. É aquela véia xexelenta da Maricota que tá vindo atrás de mim. Me ajuda.

- Eu, não. Se tu tá tomando esta cerveja quente ruim, pode muito bem agüentar a dona Maricota. Aliás, perto desse xurume aí que tu tá bebendo, a véia deve estar uma delícia...

- Porra Alonso, deixa de brincadeira!

- Te vira, Astrô! Fui!

- Puta que o pa...

- Seu Astrogildo! Finalmente encontrei o senhor! E aí, como o senhor está?

- Ô, dona Maricota! Eu estava, ô, estou muito bem, obrigado, e a senhora?

- Eu tô ótimo! Cadê a Carminha?

- Teve que ficar em casa, não tá se sentindo muito bem.

- Ah, tá certo. Olha, seu Astrogildo, eu tenho aqui um presente pra ela...

- Um presente? E desde quando vocês são amigas?

- Credo, Totô, que mal humor, isso deve ser por causa dessa cerveja, tu já tá bebendo de novo...

- Não me chama disso, dona Maricota! Que coisa, já falei que não gosto! E quem a senhora pensa que é pra falar da minha cerveja? É minha mulher, por acaso?

- Ô, quem dera...

- É o quê?

- Nada, Totô... ops, nada, seu Astrogildo, nada. O senhor também é muito amargo. Mas vai, entrega essa correntinha pra sua esposa e diz que fui eu que mandei? Quero fazer as pazes com ela...

- Pazes por quê? Vocês brigaram por acaso?

- Nada, seu Astrogildo, é besteira. Entrega, tá? Diz que eu escolhi com carinho. E o padre Pantaleão já abençoou.

- Tá bom, dona Maricota, entrego sim. Pode deixar. Tchau viu?

- Tchau, seu Astrogildo, um beijo!

- Tchau, viu? Até outra hora, outro dia, outro ano.

- Um beijo, tchau!

- Tchau!

- Um beijo!

- Tchau!