III - No quarto

- E então, Togildinho, como foi lá?

- Ah, Carmete, foi legal. Tomei minhas cervejas, vi as barraquinhas, conversei com o Alonso... foi bom porque deu pra ajudar a igreja lá, o padre Pantaleão passou mais tarde e agradeceu, acho que valeu a pena. Numa quarta-feira ninguém merece, né, mas até que foi divertido...

- O que ninguém merece é ficar doente no dia da quermesse! Eu queria tanto ter ido... por que fui exagerar na hora do almoço, meu Deus, por quê?

- Ô Carmete, mas também tu podia ter ido, só uma indigestãozinha...

- Indigestãozinha? Você está louco? Eu estou com mais gases que o Zeppelin, mais inchada do que a Geni e certamente mais fedida do que a pobre da mulher ao fim da música...

- Que exagero, Carmete! Dava pra ter ido!

- Dava, claro! Só se eu fosse vestida de fossa...

- Carmete!

- ... espalhando catinga de urubu morto por onde eu passasse...

- Carmete!

- ...contaminando as comidas todas cada vez que eu passasse perto de uma barraca e não conseguisse me segurar...

- Carmete!

- ... intoxicando as pessoas, que iam sofrer ataque de gases tóxicos sem saber de onde ele veio...

- Carmete, tá bom, pára! Que coisa!

- Ô Togildinho! Tá bom, é brincadeira. Mas me conta mais, que teve mais lá?

- Ah, nada, a gente só ficou por lá conversando e vendo o tempo passar... ah, lembrei agora, dona Maricota te mandou um presente?

- Dona Maricota? Aquela lambisgóia que vive dando em cima de tu?

- É, aquela mesma...

- E o que tu tava fazendo puxando conversa com aquela quenga, Astrogildo?

- Ô Carmete, também não fala assim. Tá pensando o quê, acha que eu tendo uma mulher maravilhosa dessas em casa vou ficar olhando praquela velha daquela Maricota...

- ELA É CINCO ANOS MAIS NOVA QUE EU, ASTROGILDO! TÁ ME CHAMANDO DE QUÊ, DE CAQUÉTICA DEMENTE É?

- ... Ehr! Ai, Maria do Carmo, que inferno! Num tem nada a ver não, pronto, oxi! Quero nada com dona Maricota não, até parece! Toma, ela mandou isso pra tu.

- Uma correntinha? De Nossa Senhora Aparecida? Olha... é até bonitinha.

- Foi, ela disse que era pra fazer as pazes. O que foi que aconteceu entre vocês duas que eu não tô sabendo? Quando foi que vocês brigaram, pra precisar fazer as pazes?

- Ah, não é nada não... é que outro dia eu peguei ela na Missa de rabo de olho pra tu, sabe?

- Sei...

- ... e aí, na saída, quando tu fosse falar com o padre, eu aproveitei pra tirar satisfação com ela...

- Tu fizesse o quê, mulher?

- Fui falar com ela, Astrogildo. Tu acha que eu sou mulher de deixar uma qualquer ficar dando em cima do meu marido, descaradamente como ela tava fazendo, e não fazer nada? Ah, meu querido, não é assim não, aqui tem diretoria!

- Ai, meu Deus, que vergonha...

- Tu tem vergonha de mim? Tem vergonha de tua mulher, Astrogildo?

- Não, Carmete, não foi isso que eu quis dizer.

- E tu quisesse dizer o quê? Vai, desembucha!

- Aff, Carmete, eu quis dizer nada, só que é constrangedor esse tipo de briga por minha causa, parece até que eu é que sou a fêmea disputada por dois machos no cio...

- Como é, Astrogildo, TU TÁ DIZENDO QUE EU TÔ NO CIO? Acha que eu tô viçando, é?

- NÃO, MARIA DO CARMO, que merda, também tu leva tudo ao pé da letra, esquece, foi um exemplo infeliz que eu usei. Mas termina de contar logo essa história. Tu fosse falar com ela e o quê?

- Eu disse pra ela que tava de olho nela, e que a igreja inteira tava vendo ela secando o meu marido, e que isso era uma coisa muito feia, uma senhora da idade dela devia estar preocupada em guardar o recato, em levar uma vida modesta, e não em se vestir como uma periguete pra ficar caçando o marido dos outros na igreja...

- Meu Deus, Carminha, tu não dissesse isso!

- Disse! E disse mais, que se eu sonhasse em vê-la de novo olhando pra você, ia quebrar a cara dela! Aí ela ficou toda errada, desconversou, disse que eu tinha entendido errado, que ela não queria tomar marido de ninguém, e foi embora.

- Ela não gritou contigo nem nada?

- Nada, aquilo é uma frouxa.

- Ô Carmete, tu também fosse muito grossa com a mulher.

- Fui nada. Ela tanto viu que tava errada que veio me dar essa correntinha pra fazer as pazes. Não é bonita?

- Até que é bonita mesmo.

- Eu vou usar logo agora.

- Mas mulher, a gente já vai dormir!

- E daí? É Nossa Senhora, é bom que protege! Ajuda aqui a botar.

- Deixa eu ver... pronto! Ficou linda!

- Não ficou? É, acho que vai dar pra fazer as pazes com dona Maricota. Domingo eu falo com ela.

- É melhor mesmo. Pronto, eu vou me trocar, visse? Chego já.

- Vem logo, Togildinho!

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