IV - Madrugada

- Togildinho! Togildinho!

- Que foi, mulher?

- Tô sentindo uma coisa...

- Que coisa, mulher?

- Um calor... um aperto...

- Ô mulher, tu é danadinha, hein? Me acordando de madrugada pra isso? Vem cá, deixa que eu levanto essa camisola...

- Ai...espera...

- Humm, você quer o serviço completo, é? Ah, essa minha mulher... por isso que eu amo você, a nossa vida nunca é uma rotina, quem poderia imaginar que, depois de vinte anos de casado, você ainda teria tanto desejo pelo seu marido a ponto de acordá-lo de madrugada pra isso...

- Astrogildo!

- Carmete? Deixa eu te ajudar com a camisola... epa! Que é isso, mulher, tu tá queimando de febre!

- É o que eu tô querendo dizer, Astrogildo, e tu com tuas putarias, acha que eu te acordei pra fazer safadeza? Eu tô me sentindo mal, é o que eu tava tentando te dizer...

- Não foi a feijoada do almoço não? Bem que eu tava sentindo uns cheirinhos meio desagradáveis agora há pouco, quando tava dormindo, mas tava achando que era só um pesadelo olfativamente palpável...

- Astrogildo, deixa de brincadeira, é sério!

- Que foi, Carmete, o que é que tu tem?

- Não sei... ai meu Deus do Céu, ai minha Nossa Senhora, eu tô morrendo!

- Calma, Carmete, vamos manter a calma.

- Ai minha Nossa Senhora, valei-me! O que foi que eu fiz pra merecer morrer assim, de madrugada, queimando de febre?

- Carmete, deixa de coisa, que tu não vai morrer não. Peraí que eu vou ligar pro doutor.

- Não, Togildinho, não, pelamordedeus, não me deixa nesse momento tão terrível. Peraí que eu tenho uma coisa pra te contar!

- Carmete, é só um instante, se tu tá passando mal tem que chamar o doutor.

- Não, Togildinho, é importante! Por favor não, eu não casei contigo pra tu me abandonar na hora da morte, fica aqui comigo, fica aqui vai.

- É rápido, Carmete!

- Ai meu Deus, Togildinho, volta aqui. Volta aqui, Astrogildo. Volta aqui, seu peste, VOLTA AQUI QUE TUA MULHER TÁ MORRENDO. Ai, minha Nossa Senhora, que eu não devia brigar com o meu marido na hora em que vou morrer, com que cara eu vou chegar diante de Deus pra explicar isso pra ele? Hummm já sei... vou dizer que foi a dor, que foi o medo... que eu era muito nova, que eu sou muito nova, a gente só tinha, digo, tem dez anos de casados... e todos os filhos que a gente queria ter, e toda a vida que a gente tinha ainda por viver, e aí de repente eu vejo isso se escoando por entre meus dedos e o traste do seu marido, ao invés de ficar comigo pra me consolar, inventa de chamar um médico... UM MÉDICO, se eu quisesse um médico comigo na cama de madrugada tinha casado com um! Ai... ai que dor, que aperto, acho que eu não tô agüentando... ai meu Deus é agora... é agora... valei-me, minha Nossa Senhora, valei-me... ai meu Senhor Jesus Cristo, valei-me... ai... ai!

- Carmete, cheguei, acabei de ligar pro doutor Hermogildo e ele disse que não devia de ser nada, provavelmente era uma virose, mas que de qualquer maneira tu passasse no hospital que ele te dava uma olhada e receitava um remédio. Viu só, eu falei que ia resolver isso... vamos lá, meu bem?

- ...

- Carmete? Carmete, tu tá me ouvindo? O doutor disse que é melhor tu passar no hospital. Vamos lá... Carmete...? Carmete, FALA COMIGO, Carmete? CARMEEEETE!

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